quarta-feira, 27 de maio de 2009

A Vida e a Morte entre o Gênero e o Poder

Masculino e Feminino # Homem e Mulher (Gênero # Sexo)

Segundo Joseph Campbell, o menino primitivo, a fim de assumir os princípios masculinos que irão consagrá-lo homem, tem que ser transformado em homem voluntariamente, através de ritos de iniciação bastante marcantes, inclusive fisicamente, para que fique patente que algo realmente ocorreu com ele; seu corpo e sua postura de vida seguirão por outras veredas, tornando-se servidor de algo maior que ele próprio. Estará representando um provedor da vida; um veículo da sociedade – dos objetivos coletivos e da ordem social. A menina se identificará com a Deusa Terra e seus poderes, tornando-se o veiculo da natureza.

Não se sabe muito sobre a iniciação da mulher no feminino, senão pela menstruação. O que ela tem de fazer é observar e assimilar a transformação que a natureza faz nela, iniciando-a em sua condição feminina, fecundante, lunar. A mulher representa a própria vida; é o veículo da vida, da nutrição, etc. E precisa se dar conta disso. O que é uma responsabilidade de consciência anterior e posterior a ser mãe. Trata-se de reconhecer-se na própria Mãe-Terra, conectar-se com Ela, com seus ciclos, etc – assim como o homem não vai apenas gerenciar norteamentos sociais, mas reconhecer-se humano, através dos desafios que a sociedade vivencia.

A função do ritual é justamente nos elevar à maturação, nos retirar para fora do campo doméstico, confortável, etc, para enfrentar a expansão dos mundos. Não é função do rito nos levar sempre para um clima caseiro e aconchegante de um útero, como nos encontros nas igrejas. Podemos até considerar isto como parte da jornada de um ritual, mas não uma meta.

Trata-se de um movimento de expansão e transmutação. Os mitos evoluem ao longo dos tempos, respondendo as demandas de mudanças de espaço e tempo, como certos nômades que migraram de um modo de vida agrícola para uma vida de caça, gerando uma revalorização de seus ritos em função de novas necessidades.

Mas atualmente vivemos uma morte dos mitos, numa enorme falta de rituais significativos. Nossos rituais são abrandamentos fajutos do que consistia uma verdadeira iniciação. Seguimos mantendo uma tradição que vem do primeiro milênio antes de cristo, de um outro lugar, lidando com seus mitos, sem alterar nem assimilar as qualidades de outras culturas, embora tenhamos nesta chamada era da informação a possibilidade de vivermos uma era planetária de expansão das diferenças.

O que temos assistido é o resultado da falta de ressignificações da vida. E o preço tem sido certa regressão instintiva, como que numa reação ao represamento dos movimentos naturais de expansão das histórias e mitos humanos. Assistimos a uma série de escapes à falta de alicerces ritualísticos que nos possibilite compreender a própria necessidade de evoluirmos.

A necessidade de evolução, que os mitos acompanham e respondem na geração de novas necessidades e tendências culturais, perderam e muito a mobilidade que tinham. A aceleração em que vivemos esconde essa mesmice de imperialismos culturais. As pessoas vivem falando angustiosamente sobre novidades. Tudo precisa ser novo, mas para camuflar o mesmo. As novidades têm sido muito mais repetições remasterizadas, maquiadas de novidade, do que novos mitos. Como dizia Cazuza, “eu vejo um museu de grandes novidades”. Onde estão as novas possibilidades, as novas visões de universo que possam contar outras histórias que não essa mesmice de novela que insistimos em nos assegurar?

É em face desse represamento do mitológico que estamos verificando uma total dilaceração dos princípios masculinos no homem e do feminino na mulher. Uma tremenda confusão entre estes princípios que residem no interior de cada um de nós. Os rituais de procriação e todo o chamado paganismo sofreu uma mutação nada “irmã” na transição da chamada Idade Média. Esses povos viviam em vilas e foram tão agredidos que o adjetivo de vilões lhes são proveniente; as sacerdotisas devidamente iniciadas no feminino da Mãe Natureza foram reduzidas ao hoje pejorativo “Bruxas”.

São tantos os resíduos históricos que não convém escavarmos aqui. O obscurantismo desumano que nos atingiu naquele período foi sem dúvida o grande momento de curvatura na história de muitos comportamentos que hoje não conseguimos compreender. Dentre estes comportamentos vamos tentar nos ater ao machismo e ao feminismo para tentarmos aqui discorrer sobre o tema proposto.

Já escrevo textos gigantescos para blogs, então é preciso refletir muito bem sobre estas primeiras considerações e mantê-las em mente se quisermos ter um diálogo sincero e transparente entre o que aqui se lê e o que aqui se escreve. Só assim poderemos abrir espaço para além de nossos pré-conceitos. Estes costumam atropelar nosso silêncio comprometendo assim o respeito necessário ao diálogo polido, pois os barulhos internos de nossas perturbações e julgamentos mentais acabam nos afastando do enfrentamento real que nos angustia.

Assim como o homem pode estar deixando de evoluir no equilíbrio da cultura com o tal machismo e suas regalias mundanas – afinal as mulheres quando tem as mesmas regalias ainda sofrem de algum pré-conceito – a mulher também tem deixado de evoluir na dependência de sentir-se valorizada pela dádiva da procriação. Nos deteremos melhor na diferença entre esta dádiva ser algo efetivamente sagrado e ser um apelo cultural posteriormente. Mas a posse do filho, bem referendada pela psicanálise como falo da mãe, é um exemplo do quanto os gêneros tem deixado de evoluir em nossa cultura.

Para quem não está familiarizado com a linguagem psicanalítica, o falo não é o órgão masculino em si, mas o simbolismo de poder que ele referencia. Tanto homens como mulheres, encontram-se escravos das imagens, do poder, e tudo o mais que caracteriza os valores culturais de nosso tempo. "Freud demonstrou, particularmente no caso da sexualidade feminina, como o desejo de receber o falo do pai se transforma em desejo de ter um filho dele" (Garcia-Roza)

Seria então bastante contraproducente discutir sobre a guerra dos sexos, nesta etapa de nosso desenvolvimento cultural. Já é percebido o quanto se perdeu tempo com isto, quando na verdade homens e mulheres entram em conflitos muito mais por causa desses valores – enquanto marionetes dos preconceitos culturais – do que propriamente por serem homens e mulheres.

Essa banalização em que muitos caem, afirmando serem os relacionamentos entre homens e mulheres algo complicado, tem na verdade sua complexidade engendrada pelos valores culturais. Não é o fato de pertencermos a gêneros distintos que nos transformam em seres tão complicados. Podemos admitir que haja uma complexidade nesta dualidade, mas a complexidade em si não é sinônima de conflito, confusão ou complicação. Tudo que envolve expansão e evolução remete a uma complexidade constituinte. A vida pode se tornar mais simples quando aprendemos a respeitar suas necessidades evolutivas.
A necessidade de poder – já bastante desenhada por filósofos como Nietzsche, Shopenhouer, Foucault e tantos outros que se detiveram ainda mais na complexidade do poder no interior da natureza humana – tem minado o desenvolvimento evolutivo de ambos os gêneros.

Bem, isto me lembra aquela sena de novela, que infelizmente é bastante comum na vida social cotidiana, em que o rapaz domina a garota em vários sentidos, mas só quando eles finalmente enfrentam, numa baita discussão, a bola de neve entre suas barrigas é que, para não perder a relação em que desenvolve seu poder, o cara vai e diz: “você é minha!”. Daí ela retruca com ódio da sinceridade do rapaz (embora seja esta sinceridade que a faz consciente da situação) e consegue tomar, finalmente, a decisão mais coerente de se valorizar e cuidar do seu nariz e amor próprios. A partir de agora ela terá a oportunidade de oferecer seu amor para alguém que respeite a condição humana inalienável de sermos sós na unidade das diferenças. Mas a questão é que a dominação, por parte do rapaz neste caso, já existia. O que motiva a cegueira cotidiana perante essas questões de “poder”?

Poder ou não poder? Eis a questão! Quem pode o quê em nossa cultura? Há quem é dado o direito de definir o que devemos fazer uns com os outros? Os homens podem ter gostado da idéia das regalias mundanas, mas isso pertence muito mais a grupos políticos que aos gêneros. Ou alguém que lê este ensaio acha mesmo que não existem questões históricas e políticas que disseminaram que a raça negra seria inferior? Há quem possa gostar da idéia para se sentir superior a alguma raça, mas isso não pertence a etnias em si, mas a justificativas de poder. Há quem tenha se beneficiado em reduzir ou selecionar o apanhado de conhecimento sagrado e religioso que convém em toda nossa história para dominar alguns setores da sociedade, queimando quem não se adaptasse... e por aí vai.

Para não sermos muito faladores nesta colcha de retalhos, vamos inicialmente tentar exemplificar o que nos interessa neste assunto através de um tema polêmico: a eutanásia. Aliás, vamos começar precisamente pelo fato de ser considerado algo polêmico. O centro da motivação em escrever este ensaio é justamente isto: Por que é considerado polêmico alguém ter direito sobre sua própria vida, a ponto de ter a liberdade de decidir por dar fim à mesma? Que entidades, órgãos e grupos têm se oposto a um ato de liberdade humana sobre sua própria vida ou morte?

Uma igreja pode ser contra a eutanásia, afinal só eles puderam tirar a vida em nome de Deus. Médicos podem se considerar donos das vidas dos outros. Homens podem isso e aquilo que mulheres não devem fazer... será que estamos falando de assuntos tão distintos assim? Por que há quem possa e há quem não possa nesta vida? Não se trata de apelar para extremos idiotas como “temos o direito de fazer o que quisermos” pois não posso concordar, como Ser da mesma espécie, que temos o direito de matar. Mas matar a si mesmo não é uma questão de direito. Mesmo que os senhores forenses queiram ter o “poder” sobre esta decisão, nunca teriam burocracia suficiente para evitar que alguém cometa suicídio. Seria pura abstração.

Mas retornando ao que nos interessa nesta digressão inicial, já foi dito que tanto homens quanto mulheres são escravos da cultura. Pois muito bem. Tenhamos a hombridade de enfrentar a complicação que rendeu a complexidade dos relacionamentos entre homens e mulheres o legado de difícil. Pois é sabido que muitas sociedades da antiguidade, e mesmo dos dias de hoje, consideram a dualidade entre masculino e feminino um componente sagrado de manutenção da saúde pessoal e do bem estar sócio-cultural.

Vamos começar com a falácia do “instinto materno”. Esta conversa fiada sobre o instinto não deveria esconder os verdadeiros valores culturais na história da emancipação feminina que fizeram das mulheres seres dependentes desta camuflagem teórica. Explicando melhor: Há mulheres hoje em dia que jogam seus filhos em latões de lixo, ou os vendem por aí. Se o instinto materno fosse algo tão universal estes exemplos não existiriam.

Não obstante, o que restaria a mulher que foi perdendo, em meados da Idade Média, sua importância no binômio masculino e feminino (reinante na esmagadora maioria das religiões da época) senão a fertilidade, a função primordial de fecundar os seres humanos.

Por mais extraterrena que fosse a inquisição e outras aberrações históricas neste planeta, os colonizadores (terrestres ou não) precisariam de escravos para dominá-los. E precisariam manter (apenas para estes fins e não para recuperar o valor ancestral do feminino) algo de sagrado na fêmea humana. Tanto que aos poucos, dos meados da idade média para os dias de hoje, elas sofreram o diabo com qualquer coisa que pudessem garantir se sentirem valorizadas. E quantas delas podem hoje afirmar conhecer, com total segurança, o meio termo equilibrado em sua feminilidade, entre terem um comportamento santo ou de prostituta (ou dama na sala e puta na cama), por exemplo? Quantas delas estão conscientes do como têm de fato evoluído entre o brincar de casar e o brincar de ficar?

Estamos falando simultaneamente de homens que precisam de uma mulher em casa e outra na rua para se satisfazerem. Então como cair na infantilidade da guerra dos sexos se no frigir dos ovos, homens e mulheres são eminentemente escravos dessa tragédia histórica da mesma espécie humana que estamos agora atualizando o itinerário histórico e cultural?

O primeiro grande (e verdadeiramente nobre) passo seria assumirmos que um homem e uma mulher são antes marionetes da cultura do que um do outro. E que a partir desta responsabilidade evolutiva podem enfrentar, não o outro, mas as cordinhas que os tem dominado (mitos para lá de arcaicos), mantendo os mesmos padrões de desejos, comportamentos e conflitos. Desta forma os conflitos de poder estariam devidamente localizados e poderíamos enfrentar melhor nossas diferenças, sem deixar que “os poderes” de homem e mulher entrassem em sena (falocracia) como parte do enfrentamento natural das diferenças evolutivas de gênero. Talvez com isso poderíamos dar saltos realmente evolutivos e utilizar nossa energia vital de maneira mais consciente, fazendo do amor uma inspiração para melhorar o mundo em que vivemos. Desta forma teríamos a saúde mental e emocional, a lucidez e a serenidade ativa, de reagir ao sistema que nos quer pôr a culpa por tudo que tem gerado de negativo, ao invés de nos autoflagelar com nossas errâncias afetivas...

Mas a coisa não é tão simples de se desatar assim. Esses valores, como vimos, literalmente sofreram o cão para se consolidarem no interior de nossos corações, mesmo com o caráter conflitante que reconhecemos corroborar. Desapegar do “instinto materno” que garante um certo tipo (bastante delicado) de poder à mulher, não é fácil. Desapegar do “instinto másculo de reprodutor” também não é uma vaidade fácil de se perder para um homem. Nos tiraram o poder que ritualizávamos no passado, unidos às mudanças de estações e outros movimentos da Mãe-Terra, e estamos transferindo nossa energia vital da guerra pelo resgate de nossas conexões essenciais, para uma guerra de sexos (e gêneros) deflagrada por grupos alheios à nossa humanidade. E o pior é que estamos no meio de uma inversão seguida de complicação de valores entre gêneros e sexos.

É o que muitos chamam de vingança do feminino. Na verdade é uma vingança das mulheres. Essa “vingança” é das mais ridículas, pois mulheres estão usando apelos, que certos homens passaram a usar um dia, para “dar uma volta por cima”. Isto soa mais como curto circuito! Como dar uma volta, fazendo o mesmo só que com o outro, senão por baixo? É mais fácil estarem reforçando os princípios falocráticos que superando os mesmos: “agora é nossa vez...” ou “a mulher pode mais; é mais isso e mais aquilo...” Vingança..? isso é humor negro, isso sim! Mas acordando para os bastidores das guerras poderemos recuperar a paz...

Essa história de vingança das mulheres é fruto da guerra dos sexos. Estudando mitologia, principalmente de figuras como Lancelot, dentre outros menos famosos, me pergunto se também não haveria motivos históricos para o homem se vingar do domínio feminino... Ou será que os poetas que morriam antes da maioridade na era romântica foram historicamente substituídos pelos realistas por acaso? Na verdade estamos falando no domínio de valores – sejam eles do período em que os femininos eram dominantes ou masculinos – que têm se chocado entre a animalidade e a espiritualidade humanas.

Neste sentido não parece prudente simplesmente chutarmos o pau do barraco cultural no qual nos tornamos para termos um mundo mais digno de nos relacionarmos. Esses, como todos os demais itinerários humanos, têm sua importância e, de alguma maneira, teremos que nos equilibrar nos extremismos da balança da evolução.

É uma luta inglória, porque homens e mulheres não têm atualmente o espaço sociocultural adequado para recuperar o que existia de sagrado na comunhão do masculino com o feminino, como existiu no chamado mundo antigo de nossa espécie. E assim, nem parece possível regredir ao estado relativamente paradisíaco desses tempos remotos, nem muito menos pode se achar que estamos no supra-sumo de nossa evolução, nos apoiando apenas em “liberalismos sexuais”, progressos mecânicos, tecnológicos, materiais e instrumentais. Em termos de relações humanas existem sociedades (tidas pela arrogância dos que consideram nossa era o supra-sumo da evolução como “primitivas”) infinitamente superiores à nossa aclamada civilização de aberrações crescentes.

O que nos cabe mesmo é recuperar o itinerário evolutivo e seguirmos mais conscientes. Aliás, o que caracteriza de forma definitiva o “avanço dos tempos de progresso” é a crescente falta de consciência: pessoal, social, ambiental, ecológica, educacional etc. A desconexão com a natureza, com nossa própria espécie, é aberrante, gritante e desgastante para a viabilidade da existência humana na terra. E ainda querem explorar a possibilidade de se instalarem em outros planetas para continuar a destruição. Isto, aliás, colabora para a hipótese de que este tipo de comportamento é mais para colonizadores extraterrestres do que para cultivadores terrestres. Esta falta de interesse em manter a unidade da vida de nosso ecossistema é efetivamente desumano. O que vamos fazer em outros planetas? Outras estrelas negras de Darth Vader, feitas de robôs e máquinas?

A preocupação das sociedades tidas como primitivas (pelo relativismo evolucionista de nossos acadêmicos antropocêntricos) era a expansão de consciência, de conexão com toda a unidade vital, águas, plantas, animais, minerais e até seres de mundos multidimensionais, os quais nem objetamos a possibilidade da existência... Talvez porque se ainda tivéssemos estes potenciais preservados poderíamos facilmente reconhecer e constatar a abdução cultural extraterrena em que vivemos, pois nossa consciência ainda estaria expandida como antes de perdermos o faro, entre outros sentidos...

Se um cientista precisa pôr eletrodos numa raiz de planta para perceber que ela reage ao simples pensamento de prejudicá-la com tesoura ou vela, como realmente exigir de alguém de nossa cultura instrumental, que aqui contextualizamos, que possa sentir presenças de outras dimensões? Sem falar do tamanho do gânglio olfativo que atrofia no nosso sistema límbico desde nossa era arcaica, quando éramos excelentes farejadores à distância.

Para que direção tem ido nossa senso-percepção nesse progresso todo? Para gastar rios de dinheiro em pesquisas de inteligência artificial? Para seres não humanos adquirirem percepção de animais e terem sensores superiores aos nossos, dados por Deus para aperfeiçoarmos nosso potencial de expansão de consciência tal qual até hoje fazem os xamãs? Ou será que estamos cada vez menos necessitando de Deus, concomitantemente a crescente falta de consciência humana de nossa própria atrofia evolutiva, transferindo nossos poderes e potenciais para uma dependência material exterior?

É neste sentido que filtramos este vasto tema com o título de “A Vida e a Morte entre o Gênero e o Poder”. O que nos mata é uma ânsia de poder que acreditamos necessitar fora de nós; que precisa ser retirada de fora de nossos corações. Coisas que dialogam muito bem com possessões e outras infantilidades evolutivas. O que nos pode manter nos trilhos da evolução humana é a harmonia dos princípios masculino e feminino, como na tradicional medicina chinesa: Yin e Yang em equilíbrio = saúde. Pois se não se pode falar em futebol nem religião, que falemos de polaridade dos gêneros. Aliás, confundir times com a diversidade religiosa não passa de mais um sintoma desta confusão entre divisão e união de nossa humanidade.

Não se pode discutir religião, mas vivenciar a religare. E se nisto nos achamos no direito de discutir qual é a mais completa e verdadeira, não poderemos reclamar das guerras, seja entre credos, países ou gêneros... Imposições ou intolerâncias culturais, étnicas, de gênero, etc, são comportamentos perigosos em que podemos perceber o nível de humanidade e animalidade em que estamos. É preciso evoluir entre o animalesco instintivo e o humano espiritual.

Pode ser que alguém (abduzido?) proclame que faço discurso idealista sobre a natureza humana, buscando equilíbrio entre o lado luminoso e sombrio de nossa espécie, puxando a sardinha para a luz. Tudo bem, desde que prestem mais atenção na tentativa do equilíbrio, prefiro que me confundam com a luz.

Minha questão religiosa pessoal ressoa com a necessidade evolutiva de nossa espécie. Psicologia, Homeopatia, Bioconstruções, Associativismo, Agroecologia, Ecovilas, ou seja, plantar e colher, levantar uma moradia, organizar uma sociedade com as rédeas de sua educação e saúde integral, etc... todos este interesses pessoais não passam de ressonâncias humanas em mim. Uma busca espontânea de união de recursos em prol de uma qualidade de vida promotora de evoluções eminentemente Humanas, humanóides, sensoriais, instintivas e espirituais. Tudo o que envolva maturidade intraespecífica no todo de nosso ecossistema (plantas, homens, bichos, etc) me interessará mais que bens e conhecimentos para meu umbigo (ou para vaidades culturais alienadoras que me tornem indiferente ao ecossistema em si).

Sim, escolhi aos 13 anos ser psicólogo. Tenho migrado para alquimia e outros recursos de cura. Mas não atendo quem não deseja aperfeiçoamento existencial, como fanáticos de bíblia na mão no meio da rua, ou pessoas com seus problemas de morte interior mal resolvidos, que se camuflam de caridosos no intuito expiarem suas covardias mais recônditas...

A pedra angular das religiões, e talvez da própria evolução da espécie humana, gira em torno da morte. Um homem ou uma mulher que tem problemas com as mortes dos outros, com o sofrimento dos outros, a ponto de querer se meter no carma alheio, tem na verdade problemas com a sua própria morte, ou no mínimo com um luto indevidamente vivenciado pela morte de alguém que não pode “salvar”. A economia emocional, bem como nossos sistemas físicos de imunidade, deveriam tender ao equilíbrio e não aos extremismos doentis. Quantas pessoas sofrem entre o excesso de caridade e o excesso de egoísmo, mesmo que em ambos os casos considerem seus extremismos legítimos?
Quantas pessoas não quiseram denegrir minha ética profissional me pedindo para tentar manter atendimentos sem a própria vontade e motivação do paciente..? E então voltamos para a pergunta: quem tem o direito de discriminar em nosso lugar sobre o que podemos ou não fazer? De onde vem esta arrogância; esta vontade desmedida de resolver pelos outros uma morte que não me pertence?

Poderíamos reduzir estas provocações à parábola bíblica do cisco e da trave nos olhos. Seria bem cômodo abrandar as inquietações promovidas pelas provocações aqui transcritas apelando para resumos intelectuais. Espero que não matem o lado escuro de suas vidas por me verem tentando equilibrar os extremos de nossas naturezas. Releiam o quebra-cabeça do início, copiem, rabisquem, reescrevam, publiquem, façam comentários, mas não me venham com reducionismos previsíveis e manjados sobre o que realmente interessa aqui.

Dar a vida por alguém pode até ser referência de heroísmo, quando simultaneamente estamos salvando nossas próprias vidas, transcendendo valores no interior de nossa humanidade. Mas Jesus não era apenas um escravo da dor que estava nos “salvando” (por masoquismo passivo) de um grupo poderoso através do exemplo da humilhação resignada. Ele estava disponível à ressurreição! Disposto como uma lagarta que aceita (e provoca!) sua morte na crisálida para renascer num novo ser, com outro DNA, e com asas voar para dimensões superiores ao rastejamento. A lagarta está salvando sua vida (gerando uma nova vida) com a morte de sua condição limitante... “Quem tentar salvar sua vida perdê-la-á”! Que dirá sair por aí salvando a vida dos outros fugindo da própria morte...

Que possamos amar cada vez mais o masculino e o feminino dentro de cada um de nós, para que recuperemos a sensibilidade e o norteamento necessários ao desenvolvimento de nossa humanidade, sem culparmos homens ou mulheres por serem partes legitimas e necessárias da imagem e semelhança com Deus. Provoquemos a morte dos extremismos e intolerâncias sobre os outros, compreendendo suas passagens por nossas vidas, integrando todas as experiências no seio da eternidade em que partilhamos a evolução.
Tenho dito...

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