segunda-feira, 20 de abril de 2009

Segurança: Proteção e Medo

Esta é uma parábola a respeito de alguns resultados possíveis, quando se trata de garantir o amparo e a sustentação do que exaustivamente se costuma designar por "status quo". Superproteção familiar, camisinha e outros artefatos da ciência, polícia, muros, grades... parecem fazer parte de um mesmo sistema, articulado em torno de leis de proibição, voltadas para a manutenção de valores que reduzem as potencialidades humanas. Independentemente das questões econômicas inerentes a essa discussão, o que interessa ressaltar aqui são os prejuízos decorrentes dessa estrutura paternalista, simultaneamente protetora e inibidora.

A propósito, recorrendo ao dicionário, o termo Paternalismo, na acepção 3 do Aurélio Buarque de Olanda Ferreira, designa "em política, tendência a dissimular o excesso de autoridade sob a forma de proteção". Nesse ínterim, uma citação de Renato Mezan (Freud, Pensador da Cultura, São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 324) – a despeito do mito científico de Freud "Totem e Tabu" – parece ser pertinente ao que se pretende trabalhar nesta escrita: "O que é assim ressaltado é o caráter protetor do tabu, e novamente, o rigor deste é referido à intensidade do desejo que por meio dele é afastado".

Conectando as duas colocações, obtemos uma privação dos prazeres, em prol de um totalitarismo revestido por uma maquiagem provedora de estabilidade e proteção. E para reforçar o invólucro, a ciência, deusa das religiões universais no mundo neo-moderno, procura assegurar a saúde e o bem estar da humanidade. Entram em cena os aparelhos ideológicos do impotente, porém imponente, sistema integrador da sociedade liberal: os meios de "comunicação às massas" dramatizam toda a problemática das doenças e dos vícios aos quais a população está exposta, como se não fossem sintomas provenientes de doenças e vícios sociais, ou estranhos aos rebocos do esquema de imposição proferido pelos representantes da panacéia progressista mundial. Doravante, os sintomas fóbicos vão se estabelecer, e o "glamour" cientificista, mesmo embaraçado em incertezas inerentes ao raciocínio metodológico apregoado, enfeita-se de garantias, entorpecendo a sociedade com novos produtos a serem desgastados junto aos organismos que os consomem. A fé no eterno milagre da ciência produz um fenômeno letárgico, paralisando a manifestação das singularidades.

O que se coloca em questão, primeiramente, é se saúde e bem estar têm, necessariamente, alguma coisa a ver com segurança. Mais do que metonimizar exaustivamente a respeito, é importante que se pense nessa associação. A idéia de saúde e bem estar não deveria estar vinculada à acomodações amparadas por ordenações tão externas aos indivíduos. A segurança não é algo estático a ser concedido como um objeto de garantia única e intransferível, mas um processo intermitente que não pode negar as possibilidades de mudança às quais toda garantia deveria estar sujeita, até mesmo a fim de manter-se enquanto tal. Esta leitura não pretende negar a importância da ciência, nem afirmar que ela não admite seus erros. O que se deve atentar é para a acomodação gerada pela credulidade pasmada, e por vezes fanática, no discurso científico, e pela espera de soluções por parte de uma via que procura responder a aspectos fragmentados da chamada saúde pública, paliativa em sua essência, de demanda quantitativa cada vez mais intensa, em que não se vislumbra as relações responsáveis pelas manifestações das doenças.

Se não há espaço para relacionamentos capazes de promover um mínimo de confiança e intimidade necessárias à saúde física e mental, não será uma instituição cientificista qualquer que irá conseguir solucionar, através de sintomatologias, as implicações da dinâmica responsável pela consolidação dos sintomas. No fundo, a efetivação de um bem estar saudável prejudica a harmonização forçada pela maquinaria liberal. Esta tentativa de manter uma estabilidade à força, se estabelece a partir de princípios tomados como sagrados. A instituição da idéia de que segurança é garantia de saúde, parece mais revelar problemas concernentes tanto a saúde quanto a segurança. O que assegura acaba sendo o que adoece. É possível desvelar os entraves que forjam essas condições a partir de alguns instrumentos que procuram mantê-los.

A polícia se enquadra muito bem na acepção 3 do termo paternalismo, encontrada no Aurélio. O medo, que sempre caracterizou a função essencial da polícia, deixou de assustar apenas aos que sofrem explicitamente as agressões policiais, sendo cada vez mais evidente em qualquer meio social. A transgressão de leis (impostas por sei lá quem), é motivo de medo e insegurança. Só é seguro manter-se em silêncio, principalmente em caso de perspectivas que possam reluzir as contradições imanentes ao sistema coercitivo. Como se não bastasse o direcionamento masoquista do prazer pelo curto circuito da unidade trabalho e consumo, qualquer sintoma – contra investimento, reação ou manifestação natural de desconforto – será julgado, sendo o indivíduo "acometido" institucionalizado de acordo com a fragmentação a que sua transgressão corresponde. A Lei do Silêncio fala mais alto; a partir dessa segurança patrocinada pelo calar cancerígeno, as obstruções que caracterizam a psicossomática vão se acumulando.

Mas o medo não será instaurado apenas por vias explícitas. Ele deve ser consolidado, da forma mais sutil e persuasiva possível, no que houver de mais "transgressor" na natureza humana; seus mais nobres avatares: seus instintos e pulsões. A camisinha, defendida como artigo sagrado de conservação da vida – outro aspecto discutível a ser comentado posteriormente –, representa o chamado sexo seguro. Não se pretende aqui negar a importância de seu uso, mas atentar para os prejuízos aos quais a cultura pode estar submergindo com todo o excesso de processos que cercam as possibilidades de contato, mantendo os mundos intersubjetivos restritos ao espaço concedido pela segurança – o espaço unitário. As certezas científicas, quanto à urgência do preservativo, procuram permanecer dissociadas do preço psico-sócio-cultural pago pela população humana quanto à contradição histórica entre repressão e liberação sexual. Existe um amplo arcabouço a respeito da história da sexualidade, elaborado por historiadores (como Michel Foucault), estudiosos e filósofos (como Marilena Chauí), cabendo aqui mais uma colaboração segundo uma perspectiva menos específica. O fato é que esta confusão entre sexísmo, sexualidade e liberdade sexual, encontra-se representada nas conseqüências às quais a seguridade justifica sua atuação, procurando ser o instrumento ordenador da miscelânea matizada em torno do sexual.

Um raciocínio apressado, para não dizer cínico e defensivo, pode levar a crer numa propensão – por parte da linguagem aqui empregada – à libertinagem ou à qualquer tipo de irresponsabilidade moral contra a manutenção da vida. Porém para se preservar a vida faz-se necessário revelar a morte, e não fingir que ela não existe, ou que ela será retardada a partir dos limites da ciência. A chamada medicina preventiva está se constituindo a partir da necessidade, "urgente nos dias de hoje", de nos prevenirmos de nós mesmos; do mundo em que corroboramos a existência e aceitamos viver. Se é difícil perceber, além de todo o comodismo, as consequências desastrosas inerentes à essa dependência mantida pela segurança, nada do que se diga terá mais importância do que continuar como condescendente e perpetuador da condição – ou do condicionamento – de desamparado social, cujo amparo se estabelece nos limites da segurança; nada do que se diga conseguirá revelar que a verdadeira morte se estabelece em torno dessas limitações.

Toda a sacralidade promovida pela campanha do sexo seguro, mexe com questões silenciadas como misteriosas e ocultas na ontogenia humana. Questionar sobre o desamparo e a segurança que o sustenta é mexer com a lógica do tabu na modernidade. Não obstante, o maior pecado é a subordinação. Uma camisa de força envolver um pênis ereto – sufocando e impedindo seu contato, sua livre irrigação junto à excitada vagina – é mais que um ato de proteção. É um modo de privação que corresponde a um comprometimento de toda uma dinâmica na relação dos envolvidos, o que, naturalmente, não está limitado ao ato sexual. A nudez (existencial, mental, corporal e tudo mais) pretendida pelo contato, não se efetiva, pois logo ali, em um dos órgãos do todo envolvido – de onde se fala até em pulsões sexuais –, um invólucro se (im)põe. A camisinha, tão presentificada no pênis ereto, simbolicamente reveste todo o corpo, como que criando um invólucro impenetrável: dentro a saúde e fora Thánatos. Este último está imanente ao gozo, mas o medo expulsa o outro e as dimensões entre a vida e a morte são dissociadas. A fronteira estabelece uma distância entre as pessoas envolvidas, deslocando a loucura orgástica do corpo para o imaginário.

E mais uma vez, toda a divindade tecno-religiosa vai se inscrevendo nas sutilezas do quotidiano. Julga-se até de cínico quem afirma que o prazer será comprometido com o uso do "preservativo", inclusive chamando de irresponsável e hedonista quem privilegia o prazer à segurança. Nada mais cínico se considerarmos que o leitor é quem escreve o livro. Mas parece haver uma leitura divina e salvadora, que disponibiliza os receptores de informação a seguirem sua visão: A indiferença-de-si. Estamos indiferentes às diferenças necessárias para que algo exista. A arrogância da indiferença para com as singularidades dos diferentes sentimentos e conceitos, revela toda a insegurança implícita nos que seguem a sistemática niilista da segurança. O movimento dialético é simples: A proteção assegura o medo e este assegura necessidade de proteção.

É absurdo ter de lembrar disso, mas nas circunstâncias às quais chegamos, é preciso salientar que não há puro ato sexual. Mesmo a mais tripudiante manifestação de contato sexual, que a sintomatologia social for capaz de conceber, não estará isenta de fantasias que a signifique. E é justamente por esses permeios no plano das fantasias, mediados por transformações culturais, que as tais confusões históricas no âmbito da sexualidade, referidas há pouco, correspondem às tais arrogâncias e demais conseqüências doentias para a saúde pública. Precisamos das fantasias para compartilhar sentimentos junto às vivências, porém viver em função de fantasias representa um comprometimento da liberdade; da disposição para a experiência.

A presença da camisinha institui uma compensação imaginária para realização do contato sexual, concebendo espaço à dimensão virtual deste ato. A sensação, que geralmente representa junto à percepção o aparato psico-corporal de extensão dos seres, perde a qualidade de sua impressão e de seu contato como um todo. A "comoção da corporeidade" se torna um fenômeno cada vez mais distante. Isso sem falar no constrangimento do próprio momento, sui generis, em que a obrigação do uso se estabelece. Negligenciado por todas as campanhas como se fosse um problema de adaptação, ou mera acomodação irresponsável, esse momento possui tanto dificuldades "naturais" – como quando o prazer que se propicia tem claramente a finalidade vestir a camisinha, e não a de representar qualquer tipo de manifestação preliminar instigada pelo desejo brotado – quanto dificuldades culturais de gênero, que embargam ereções do mais experiente sedutor ao mais praticante come quieto. Coitada da nova geração de virgens...

Aliás, já está mais que na hora de perceber que não se trata de conservadorismo, ou mero nostalgismo, quando gerações que passam enaltecem as vantagens de seu tempo, temendo pelo futuro das gerações vindouras. O banalizado "conflito de gerações" não emerge por conta de uma evolução nas relações humanas saudáveis, mas por progressos – ou processos – que rondam e transformam a natureza dessas relações. Se não se discute nem mesmo as leis que regem essa compulsão progressista, como se quer conceber uma evolução, ou mesmo um espaço de expressão menos limitado, nas relações humanas? Geralmente se fala de coisas que acompanham o progresso da humanidade... e viva a passividade... à santidade...

Ao contrário do que se pensa com o passar das gerações, os processos de aproximação social estão se tornando cada vez mais complexos. Se antes havia maior repressão e mistério em torno do sexo, atualmente se observa, além deste aspecto negado e conservado, o azedo e contido tempero da ansiedade ante uma perigosa noção de liberalidade "concedida pelo avanço dos tempos". Não será essa dependência de uma concessão para liberdade um aspecto revelador de algo que, no mínimo, dificulta e protela os contatos humanos transformadores (efetivos)?

Não cabe aqui a discussão do tempo que seria pior ou mais saudável – já que cada momento é uma passagem diferente – mas caberia analisar as transformações ocorridas nas sociedades, pelo menos no que se refere às sociedades da modernidade, que cercaram, ou cercearam, as possibilidades de aproximação humana. Esta análise revelaria os bastidores da bola de neve inscrita na mistura "espera com ânsia", promovida pela falocracia instituidora da "falta": a, ansiosamente esperada, esperança. Enquanto as permissões não ocorrem sob a égide de uma lei qualquer, a solução "acaba sendo" esperar... Mas não há racionalismo puro; os escapes articulados nessa "esperânsia", fazem a suplência das saídas – indesejadas por concessão – instaurando-se a discórdia. Todos escapam sobre todos por serem representantes da mesma ameaça que os afligem: o outro; o vidente visível; a presença da ausência; a alteridade no si.

Como os seres não se vêem reconhecidos nas leis, posto que a prática se estabelece em detrimento dos direitos da grande massa de escravos, as contradições imanentes aos ditames jurídicos caracterizam uma institucionalização(através da impunidade que protege a minoria privilegiada da população) da violação de direitos, do jeitinho brasileiro, do burlar etc. A que tipo de perversão essa seguridade – inerente às diversas formas de lei – está a serviço, se sabemos que o mais garboso advogado, médico, político, empresário, dentista... pode ser um ladrão de galinhas ou de granjas?

É incrível como o medo instituído pela proteção é superior a qualquer sentimento de prejuízo afetivo consequente. Parece não haver nem mesmo a perspectiva da tentativa, provocada pelo contato sexual, de se diminuir o quanto possível as distâncias – forjadas pelos processos cada vez mais complexos de aproximação sociais – dos participantes de um momento de entrega às experiências fluidas de prazer, afim de se fundirem em gozos unificadores. A perda dessa perspectiva, se é que ela se apresenta, não parece ser mais aterrorizante que o risco da morte ou da culpa, provenientes de conseqüências possíveis tanto quanto quaisquer outras. É claro que existe uma disseminação de doenças, mas isso não justifica a institucionalização definitiva do fim dos contatos humanos profundos. Não se deve negar que Thánatos possa participar do momento erótico. Se está presente é porque também faz parte do processo de extinção dos contatos.

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