Tem muita coisa que escrevo a respeito das co-incidências que me acontecem na vida. Vamos começar do começo, quando me dei tempo de passar a escrever a respeito das sincronicidades:
Agora que estou morando sozinho posso deglutir melhor certas dimensões e ângulos que há tempos vêm me convocando a abarcar. Moro num apartamento que era de um velejador, amigo, e irmão de um grande amigo, na Rua Sete de Setembro, independência. 6º andar, apartamento 804, soma 12, o dobro do andar, cuja soma é 3, nova unidade após a dualidade, o espírito santo etc. Faz parte da convocação à elevação natural. Os convites me fizeram, em 2004, finalmente me debruçar em leituras com as quais pudesse dialogar em paz. De Jung, as Cartas, Sincronicidade, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Psicologia e Alquimia – por essas bandas Anatomia da Psique de E. Edinger. Literaturas sagradas em geral. Na verdade estou procurando disciplina. Coisa que só tive de minha mãe de forma indelicada. Gosto da leitura e tento me dedicar. Gosto de uma volta no Parque 13 de Maio, desejo repetir. Gosto de meus novo amigos como de sempre, posso cultivar mais beleza.
Venho observando melhor o tempo. A conexão de todos. Certo dia, em Junho de 2004, vi as pessoas nos ônibus enquanto passeava pelas ruas e senti, como elas, a verdade do encontro. Na maior parte do tempo não há oportunidade de celebrar nossa existência no momento do encontro. Os olhares estão absortos, vagando, despertados apenas por entretenimentos fora da vida natural, ou por aberrações frutos de nossa palidez afetiva. Realidade: O que fazer do mundo material que caoticamente nos contorna, se somos os maiores responsáveis que conhecemos pela evolução e cultivo do planeta? Paradoxo: Maestros escravos de sua realidade. Vida: gira em torno da dependência material e dos desperdícios da cegueira. Energia: dissipada. Enquanto isso a ressurreição é um universo simultâneo que nos convoca à conhecer nossa força de atração; nossas estações, estradas e janelas.
Nesse dia em que passava pela Rua do Príncipe, estava de branco por conta do estágio em Psi Hospitalar na Aeronáutica, e as pessoas me olhavam pelo estereótipo. Eu não sou médico ou enfermeiro, embora traga a bata branca nos braços. Quero ser útil na saúde, mas pelo coração e pela mente. E me perguntava sobre a mitologia do Branco naquela tarde. Um senhor que estava à minha frente foi parando para acender um cigarro, e pela rotação que eu estava passei por entre ele e uma árvore que estava na calçada no mesmo momento. Eu me toquei da cena. Ele, não sei se percebeu o encontro, quase trombada. Acender um cigarro no momento de passar alguém todo de branco... A convocação se dá simultaneamente para as partes, pois é concebida pelas partes. É algo que paira a todo instante. Como em filmes de arte, a realidade oferece visões simbólicas para os contextos de vida. Muitos vagueiam o olhar. Muitos pelo constrangimento do encontro se curvam com a cabeça. Muitos percebem o limiar da superfície. Mas raros são os que olham, sentem e percebem seu momento no mundo. Nestes a presença possui um tempo autêntico. Há (re)conhecimento de haver um outro de mim mesmo, e uma simples, terna e profunda ligação com a natureza humana em expansão por entre os olhares.
Continuando a caminhada encontro com um girassol pendurado numa janela (onde se poderia supor um jarro, embora não o visse), e me deparo com a alegoria da alcunha que me fora batizada aos 11 anos – Sol – neste momento da mitologia que se prossegue. Me dou conta da urgência do despertar; da emergência da multidimensionalidade; do vórtice provocado pelo conhecimento do giro que esculpe os vários ângulos. Tempos depois Carlos Fred me faz entrar em contato por uma segunda vez com o CD Música em Pessoa, em que João Soares (mais um desperdício de talento canalizado pelo narcisismo do status de ser mais visível que vidente – ao menos no que concerne à sua possibilidade de comunicar há um desperdício de talento [e conteúdo]) declama divinamente o poema do “...Vadio e Pedinte...” de Fernando Pessoa – Álvaro de Campos. Belíssimo! É um mergulho para qualquer ser humano que ainda guarde o jardim dentro de si e não nega sua contingência: Ao final da tempestade de sentimentos e constatações, um despertar emerge na lucidez que a caridade por si mesmo revelou na caridade inicialmente conferida ao pedinte – outro dele mesmo. Mais uma mostra da simultaneidade das conexões da vida em que nos é levado a cabo nossa “comiseração” – grande sinônimo de “compaixão”!
Hoje, dia 17 de Junho, quinta-feira, há 4 dias do início do inverno, tenho copiado em meu computador, o capítulo 8 do Anime “Haibane Renmei” que fala desta passagem de estação com o título de “Pássaro”. Um capítulo chave que fala sobre unidade(ressurreição) e transcendência(morte e renascimento). Estou com o capítulo no computador há mais tempo, mas hoje uma amiga passou aqui e me revelou que está grávida, e de um cara “comprometido até os pentelhos” (sic). A conexão está não só no fato de ser uma possibilidade de nascimento, mas também por que se trata de uma pessoa que ligou as trompas. Há riscos. Mas ela irá dar à luz. E depois do que conversamos me veio a reflexão que a personagem principal do Anime, Rakka, se dispõe: não sei porque vim a ser uma Haibane. E aquela pergunta constante sobre nosso tempo e espaço. De onde viemos e para onde vamos com tudo isso...? A banalização do para que estamos aqui é uma questão muito delicada. A perguntar sobre alguma nobreza em estarmos vivos, em existir Deus ou a divindade, ou a honra, se estamos tão envergonhados de nós mesmos, numa terrível indiferença. Como tudo mais, a indiferença é algo que surge simultaneamente, fazemos aos outros = fazemos a nós mesmos.
Não gosto de ser mal interpretado em minha espontaneidade ou em meus sinceros desejos, assim como não gosto de projetar um ideal em pessoas que têm sua distinção. É pelas diferenças que expandimos, não pelas expectativas. É pelo surpreendente que nos fascinamos e não pelos ideais que construímos em cima. Mas às vezes a linha parece muito tênue. Para muitos a pergunta é: como garantir que uma atitude seja verdadeira? E eu me pergunto: como prescindir das garantias para agir livremente, aprendendo e elevando a verdade ao infinito das vivências? Ou como indaga Álvaro de Campos: “De que vale uma sensação se há uma razão exterior para ela?” – É uma daquelas frases que a gente sente que poderia ter sido o autor antes de ler. E ainda há quem não compreenda o que considero indiferença neste contexto (ou não querem “entender”). Não há diferenciação na virtualidade da fantasia com a qual muitos engomam a realidade, tornando-a clean. Então revolvem-se quando algo foge ao controle dos fatos; da manifestação das verdades. Enquadres idealizados, rotulados, nunca tamparão a natureza humana. E ai de quem for omisso às revelações da vida, pois a bola de neve se encarregará do despertar. O mal não está na dor, mas na cegueira, assim como o bem não está necessariamente no prazer, mas no despertar. Aí está a diferença entre preferir o prenúncio da culpa à consolidação da responsabilidade. Esta sim garante uma identidade, mais que a memória. Daí o desconhecimento sobre a vida e a morte.
O que fazemos aqui é uma questão além da luz e da sombra. Ser é uma responsabilidade inata. É uma habilidade potencial. Até onde podemos chegar é uma habilidade adquirida.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
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