segunda-feira, 20 de abril de 2009

Feridas Narcísicas

“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro acorda” (Jung)

(***Os dois trechos com estes 3 asteriscos não devem ser contemplados como confusos. Estão apenas lembrando que as artes, os conhecimentos científicos, tudo tem um tempo histórico para acontecer, configurando identidade para seu tempo. São manifestações, tendências particulares de cada tempo. Isso se reflete na família, na educação em geral, nos interesses científicos etc. Depois os historiadores dão nomes a estes períodos para demarcar no tempo as particularidades nas evoluções das culturas).

Nosso narcisismo não nos permite ver a ignorância em que vivemos. Nosso ego não aceitaria ignorância no auge evolutivo que acredita estar. E tem perdido cada vez mais essa tolerância ao reconhecimento da ignorância em alguns sistemas.
As ciências para as quais somos educados são muito abstratas, e bem menos objetivas do se propõem. Os estudos iniciais até o Segundo Grau, parte de nossos referenciais de subjetivação (além da família e do convivo social na escola), estão restritos a conhecimentos relativamente inúteis. Ensinaram-nos a pensar que estávamos desenvolvendo a mente, o raciocínio (da lógica formal), etc... e que não seria de todo um desperdício passar infância e adolescência debruçados em estudos pouco intuitivos e demasiados universalistas. Resta saber para quê, a serviço de quê. Para ser o quê canalizamos nossa infância e adolescência confinados nestes moldes?
Como disse João Suassuna de Melo Sobrinho, inspetor de Educação do MEC e Decano da Maçonaria que conheci em Recife, falecido aos 93 anos em 2005, as instituições educacionais deixaram de representar templos do saber para se reduzirem a fábricas de robôs do sistema.

Certa vez, aos 14 anos, perguntei a meu professor de matemática, da oitava série, para que me serviria estudar “Funções”. Ele me falou que o que um jogador de futebol faz num gol olímpico pode ser demonstrado num gráfico, entre outras baboseiras que ele disse e não vale a pena lembrar. Convenhamos: é abstração demais. Hoje temos máquinas, softwares e equipamento para prescindirmos desse tipo de estudo até mesmo na construção de casas etc. Sem falar que jogadores de futebol (pelo menos naquela época) eram em sua maioria analfabetos e ganham cada vez mais dinheiro do que eu (pelo menos 10X mais), que estou formado e com outras qualificações profissionais... E aí? Para que estudar tanta coisa inútil? O que diabo é uma partícula no vácuo sem atrito? Nunca entendi ser considerado burro por não tirar nota máxima em coisas tão inúteis à minha consciência. É assim que serei inteligente porque ganharei uma graninha sem pegar no pesado da “auto-sub-existência”? Qual a inteligência de nos esforçarmos tanto para fazermos tão pouco no fim das contas? E mais uma vez: Pra quê?!?

Tudo bem o mundo tem milhões de motivos para estar essa desgraça que tem se tornado. Mas convenhamos, é por pura burrice efetiva.
Nossa dificuldade em conceber as novas revelações científicas (essa repetição histórica sobre “o novo”, que se manifesta também nas artes e nas tendências gerais de uma era)***, se deve muito ao treinamento que recebemos nesse período, talvez os anos de maior criatividade de nossas vidas. É no manancial de desenvolvimentos possíveis da infância e adolescência que nos é negado o direito de conceber realidades sob pena de sermos... taxados de burros se não aceitarmos que uma via unilateral de crescimento coletivo é “o caminho, a verdade e a vida”. Dependendo do grau de abdução há quem faça bandeira e acredite que isso naturalmente é o futuro para todos os povos, inclusive. Para estes miseráveis da alma, a relatividade entre atraso e avanço de um povo está cegamente propagado tendo o progresso como denominador. Só que evolução não é sinônimo de progresso. A evolução humana inspira desenvolvimento pessoal, espiritual, independência e uso dos meios materiais em prol do desenvolvimento humano e do meio que o faz existir. Progresso tecnológico inspira um desenvolvimento instrumental, com dependência material em prol do desenvolvimento instrumental, em detrimento (ou indiferença) do desenvolvimento do planeta.
Sem alguma espécie de potencial telepático nunca um ser humano criaria de pára-quedas uma rede na Internet. Só abduções extraterrestres poderiam surgir de fora para dentro do engenho humano.

Com efeito, um cientista que passa uma vida em laboratórios de inteligência artificial, deve mesmo achar que conseguiu fabricar um olho com “gigapixels” tão exponencialmente poderoso como o olho humano num robô. Acredito que o olho de seu robô tenha pelo menos chegado ao pé de igualdade em visão com o olho deste “cientista” (e vice-versa, naturalmente). É assim com tudo que nos debruçamos. Somos o limite e o excedente de nossas possibilidades e percepções... Mas tem olhos com astigmatismo, miopia, hipermetropia, etcetropias. Como falar em inteligência artificial para esses fins? Querer fazer um robô imitar um ser humano é tão ridículo (e contraproducente nos dias de verdadeiras urgências de gasto de dinheiro público mundial para a ciência), quanto tentar imitar Deus nas clonagens. Deveríamos ter alguma vergonha, ou mesmo culpa, em alimentar nossa acomodação crônica, e nos ater a ocupações mais nobres do que arrumar um clone (ou robô com excelente câmera) pra fazer nosso fast food, com tantos potenciais humanos “intocados” para evoluirmos atrofiando no infinito universo interior... (potenciais que de vez em quando “os grupos políticos” não conseguem abduzir).

“O que nos caracteriza e diferencia da inteligência artificial é a capacidade de emocionar-nos, de reconstruir o mundo e o conhecimento a partir dos laços afetivos que nos impactam.”

“Há alguns anos, ainda acreditávamos que as máquinas poderiam substituir-nos nas tarefas fundamentais. Por isso era freqüente representar o futuro como uma sociedade robotizada. Este sonho terrível foi-se dissipando no horizonte científico e social, porque agora está claro que, se o robô pode produzir certas funções ou atividade humanas, ninguém conseguiu inventar um computador capaz de sentir, de comprometer-se com o encontro, de chorar ou de rir. E este não é um fato intranscendente. Como nós seres humanos só podemos descobrir-nos nos espelhos deformantes que a cultura nos oferece, hoje podemos constatar que o pesadelo do homem-máquina, tão perseguido pelo Ocidente, também serviu para ratificar de maneira profunda e certeira a autêntica dimensão do humano. O que caracteriza nosso pensamento, nossa cognição, o que nenhuma máquina jamais poderá suplantar, é precisamente esse componente afetivo presente em todas as manifestações da conivência interpessoal.”

“Mesmo aceita esta afirmação em sua validade geral, continuamos tendo dificuldade para reconhecer em cada um de nossos espaços cotidianos em que consiste esse componente afetivo e de que maneira devemos fomentá-lo. Nós cidadãos ocidentais sofremos uma terrível deformação, um pavoroso empobrecimento histórico que nos levou a um nível jamais conhecido de analfabetismo afetivo. Sabemos do A, do B e do C; sabemos do 1, do 2 e do 8; sabemos somar, multiplicar e dividir, mas nada sabemos de nossa vida afetiva, razão pela qual continuamos exibindo grande entorpecimento em nossas relações com os outros, campo em que qualquer uma das culturas chamadas exóticas ou primitivas nos supera de longe.” (Restrepo, Luis Carlos. O Direito à Ternura. Petrópolis: Vozes, 2001).

A vaidade humana é mesmo uma grande miséria.
Muito ouvi falar, em estudos das histórias das ciências, sobre as “feridas narcísicas” que sofremos, não somente na comunidade científica (permeando paralelamente outros aspectos da humanidade em cada momento histórico)***, mas principalmente na ciência. Dois exemplos que me recordo agora são os de Galileu (quando nos tirou do centro do universo e pôs o sol de volta pro seu lugar ancestral e sagrado no cosmos) e os de Freud, nos tirando a arrogância egóica do saber da consciência. Este termo merece volumes de discussão. Consciência depois de Freud, com ênfase experimental, contou com novos estudos e gerou novas perspectivas evolutivas pra gente se tocar de parte de nossa ignorância. O inconsciente passa a ser objeto de terapia, de inclusão de muitas complexidades humanas antes ignoradas. Mas antes de quem? Onde? O quê?

É, tudo é muito relativo. Atualmente Fritjof Capra (pra citar o mais famoso) vem revelando aos cientistas academicistas ocidentais, que muito do que se diz ser novidade na percepção dos fenômenos da natureza já era ciência sagrada em diversas culturas bem anteriores ao novo mundo. Egípcios, incas, maias, astecas e tudo o mais já haviam colocado o sol no centro do universo muito antes de Galileu, dentro de seus sistemas simultaneamente científicos e religiosos – reconciliação “reimosa” nos últimos séculos...

Na verdade não se conversa muito sobre quem realmente se feriu com essas rupturas que Galileu e Freud, por exemplo, geraram. Acredito que os que participavam do Espírito de Mundo que inspirava seus condenadores. A “aparição” de grupos políticos lembra abdução extraterrena, ou pelo menos não deveríamos banalizar a ética evolucionária de nossa espécie considerando como uma intervenção humana pensar em punir, ou mesmo pôr na fogueira, um cientista visionário como Galileu (pra citar quem virou notícia). Isso se repete na história e não sabemos muito falar a respeito do lado sombrio de nossa espécie. Mas sabemos de muitos exemplos históricos (avalie no anonimato) de certos conhecimentos serem “consagrados” e outros marginalizados, mesmo quando são tão gritantemente urgentes. Sabemos dos crimes inafiançáveis da Inquisição e do INDEX...

Dentro da medicina também temos exemplos muito marcantes. Afinal a homeopatia inicialmente fora condenada pela medicina vigente. Esta depois precisou aceitar sua validade empírica, porém afirmando ser uma prática validada apenas para médicos. Que contradição interessante. O que caracterizaria uma proibição seguida de reconhecimento restrito a quem havia condenado senão por questão “política”? Ou será que deveria retirar as aspas? A medicina conseguiu isso com a psiquiatria: os psicólogos da saúde mental precisam fazer medicina se quiserem ser psiquiatras. O chamado ato médico é “ato” justamente por ser político. Um grupo político da medicina pretende centralizar tudo que envolve saúde nas mãos deles, querendo impedir que os próprios doentes optem pelas terapêuticas que lhes convir escolher. Eles alegam de cara lisa que a medicina é a mais antiga das ciências da saúde, e que as que vieram depois podem ser charlatãs, ou coisa que o valha. Eles negaram a tradicional medicina chinesa, até a acupuntura conseguir seu espaço. Marginalizaram a fitoterapia, até esta fazer o mesmo. E tentam desde o século dezenove negar ou invalidar a homeopatia que não for para médicos. Negam tanto o pai da medicina, Hipócrates, como o pai da homeopatia Hahnemann, que, se devidamente estudados, nos levam a perceber muito mais continuidade evolutiva da medicina que a atual alopatia instrumental deseja nos fazer crer prosseguir. Esta medicina recente – que os tais grupos políticos defendem, adotam e consideram a medicina por excelência – está sendo ameaçada pelas medicinas alternativas, complementares, etc; daí a necessidade de atos (políticos) médicos para deter os avanços de se tirar o foco da doença para o doente. Isto é também um perigo para a indústria farmacêutica.

Mas voltemos à nossa trajetória rumo a “tragédia da burrice” a que nos referíamos, do “tempo ganho” entre a infância e adolescência, quando passivamente nos educamos sobre o que tem valor de conhecimento, e tudo o mais que dizem ser o que retrata uma pessoa inteligente nesta época do desenvolvimento. Voltemos a falar sobre a ignorância em que (ir)refletimos passivamente na infância e adolescência através dos outros, sob pena de “perdermos um ano precioso” de estudos inúteis à vida prática, como temos mencionado.

Podemos lembrar de que esta época tão criativa e efervescente da vida, também nos foi omitida com relação a Jesus Cristo. A exemplo da vida e obra dos 8 discípulos sumidos da Bíblia, foi suprimida da história que nos chega o conhecimento do Jesus adolescente para o Jesus adulto. O que é muito intrigante quando chegamos na parte em que deixa os pais aos 12 anos por se sentir magnetizado por templos e magos da época. Sem mencionar João Batista e a iniciação do batismo maduro.

Não temos conhecimento de boa parte dos conhecimentos de seres iluminados como Jesus e tantos outros; não temos o tempo existencial adequado a cada época do desenvolvimento; Não nos é dado oportunidade para desenvolver nosso próprio conhecimento do mundo. Quando criança muitos de nós apela para um amigo imaginário: daí as “pessoas de fora” nos olham como se fôssemos perturbados... Quem perturba?

Até na faculdade necessitamos fundamentar nossas percepções pelos outros.
Naturalmente que nossa percepção até pode ser ampliada e melhor estabelecida graças ao confronto e o auxílio de outras fontes. Mas vejam o que sofrem as atuais (ou arcaicas atualizadas?) e urgentes percepções dos novos cientistas para se fazerem compreender (mais uma vez na história), desta vez por conta de uma cultura academicista, “burrocrática”, rançorosa de enciclopedismo e infinitamente menos objetiva que a dos antigos cientistas. Estes ainda tinham tempo e espaço para serem artistas e individualmente transdisciplinares.

Sim. Quem hoje tem 150 anos para se formar em astrologia, filosofia, física, matemática, ciências em geral, ser inventor, pai de família, esposo e homem, trabalhar para sustentar tudo isso... Hoje nem temos tanta ânsia de conhecimentos assim. “Não teríamos tempo” sic. Somos especialistas a fim de meios pra consumir, contribuindo cegamente para a aceleração (hipertensão?) da vida. As restrições desta postura na “evolução progressista” merecem diálogo consciente.

Abdução ou não é importante resgatar o senso de evolução, senão humana, do planeta, da vida em si. É preciso falar de ética e desenvolver algo para aperfeiçoamento da vida na terra, incluindo ela nessa transformação, e não da maneira exploratória e irresponsável que temos empurrado a poeira pra debaixo do tapete de nossos extremos aberrantes. Talvez fale de abdução para esconder minha vergonha. Mas quantas feridas narcísicas ainda precisarão surgir para reascender a nobreza de sermos Humanos..? “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo”; Cuida do Universo e cuidará de ti mesmo. “Não faça com os outros o que você não quer que seja feito a você”; O que fazemos aos outros, fazemos a nós mesmos. Contribuímos para o descuido com o planeta por estarmos ignorantemente descuidados conosco. Ah, mas basta ir numa drogaria para não termos consciência de tantos descuidos e dores na consciência (e no corpo) de tudo isso.

Se este assunto é banal, utópico, piegas para os corações defensores (abduzidos?), parece ainda mais urgente meditarmos melhor sobre nossa postura no mundo. Resgatar o interesse de saber o porquê de estarmos mesmo nesta vida.

Pois muito bem, na escola não encontrei as melhores respostas. Quando meus pais me ensinaram o que o meu professor de matemática não conseguiria, descobrindo para que estudava, percebi que havia possibilidades, mesmo sendo restritas e à parte de meus interesses e desejos. Fui afunilando e decidi fazer psicologia para viver e ganhar a vida me sentindo útil às pessoas. Na época eu precisava de um monte de coisas, mas dentre as que me falavam fui me enquadrando na psicologia por parecer uma boa ponte para algo maior, algo esse que intuía, mas não conhecia. Ainda estou descobrindo. Isso deve ser lento mesmo se não quisermos cair na malha de interferência e “intoxicação” em que paralelamente compartilhamos a vida. Deve ser lento se conhecer, se re-conhecer. Prefiro que seja lento. Em meio aos atropelos dos “tempos reais” e outras virtualidades aceleradas, devemos um ritmo diferente à nossa consciência, parando de girar apenas, e dando oportunidade ao nosso centro.
Não sou meus pensamentos, meus sentimentos. Não sou uma cápsula solipsista isolada e impermeável. Isso nem mesmo pode ser o Ego! Os átomos não são grãos de areia ínfimos, seus núcleos são energias que se relacionam. Formas de pensamento e sentimento são criadas junto a outras formas de pensamento e sentimento que nos atravessam desde a barriga de nossas mães. Somos permeabilidade, pura mediação.
E não precisamos de exemplos históricos de cientistas postumamente reconhecidos para nos alertarmos disso. Essa característica de darmos valor ao que perdemos é sintoma de cegueira, sono ou, para ser mais eufemístico, acomodação. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque, se você parar pra pensar, na verdade não há”... Esta atenção também deveria caber aos chamados cientistas malucos e artistas que revolucionam culturas... depois de sua morte.

E assim caminha a humanidade, com uma aceleração na superfície que ilude um “progresso”, escondendo uma lerdeza efetiva da evolução no interior do ser humano e do desenvolvimento social das culturas. Não preciso aqui falar de números crescentes de sintomas instintivos e primitivos que temos acompanhado na “evolução dos tempos”, violências, intolerâncias e tudo o mais. A “tele-visão” está aí para garantir meu levantamento de dados e todas as estatísticas do que temos feito a nós mesmos e ao planeta, melhor que qualquer fundamentação teórica...

Um parêntese:
Passou pelo potencial humano, nada se perde e o ser se transforma. Somos mediação. A consciência se manifesta entre sujeito e objeto, não parte de uma banda para outra. Sujeito e objeto são sciências da con-sciência. O observador altera o observado e este também desperta o olhar do observador. Têm vidas próprias e a consciência se manifesta nesses encontros. É graças a esta natureza permeável que a consciência se revela nas sínteses que produzimos daquilo em que estamos imersos.
O entendimento é uma das categorias da razão. Categoria que separa e distingue para melhor compreender (entenda-se compreensão como entendimento + concepção da teoria dos conjuntos: as diferenças e o espaço que se amplia na criação da consciência quando sujeitos e objetos “se compreendem”). Compreender é estar compreendido, envolvido com o que entende: o sujeito participando do mosaico manifesto da consciência com o objeto.

Voltando:
“Como foi descrito anteriormente, o ser humano tanto afeta o ambiente quanto é afetado por ele. No nível emocional, uma das nossas influências mais importantes é a incapacidade total dos nossos sistemas educacionais em fornecer um treinamento emocional para os jovens. Como resultado, nossa parte emocional permanece subalimentada e caquética, tornando-se presa fácil das condições de doença. Em toda história ocidental, e especialmente na era atual, materialista e tecnológica, a educação tem se concentrado quase que exclusivamente no treinamento atlético (nível físico) e intelectual (nível mental). Os principais heróis dos jovens são os colegas de classe bem-sucedidos atlética ou intelectualmente. Os jovens sensíveis, artistas, músicos ou poetas raramente são glorificados e encorajados. Na vida moderna, a principal fonte de educação emocional parece ser a televisão, que envolve o espectador apenas de forma passiva e enfatiza as perspectivas exageradas ou fantasiosas da vida.”

“A educação deveria seguir um procedimento mais natural e baseado nos estágios conhecidos da maturidade. A ênfase educativa deveria ser voltada ao desenvolvimento do corpo físico entre as idades de sete e doze anos; ao nível das emoções, entre as idades de doze e dezessete anos; ao nível mental, entre as idades de dezessete e vinte e dois anos” (Vithoulkas, George. Homeopatia: Ciência e Cura. SP: Cultrix, 1995; pgs. 62 e 63).

Como o progresso poderia ser sinônimo de evolução sendo incapaz de considerar as particularidades inerentes à própria espécie que deveria guiá-lo? Com o perdão da ridícula insistência, mas não parece abdução? Será que essa obsessão de um Steven Spilberg ou um Chris Carter e os milhões que estes caras ganharam com produções voltadas para a temática extraterrestre não fazem parte de nosso inconsciente coletivo, tendo em vista que as produções artísticas são reflexos da percepção de mundo de cada tempo? Por que será que tanta gente assiste e fica vidrado nesse tipo de tema? Eu mesmo nunca consegui assistir dois capítulos inteiros do Arquivo X, nem viajo em ÓVNIS ou coisa que o valha. Nem muito menos atribuiria poderes e conhecimentos superiores à ETs ou mutantes sem antes referenciar uma evolução simultaneamente onto e filogenética da nossa própria humanidade. Mesmo considerando “suspeita” esta inversão que estas ficções utilizam (de quem evolui para onde), uso o termo abdução talvez como metáfora de algo quase intangível, muito pouco assumido pela arrogância de nossa espécie de não admitir boa parte de sua inconsciência frente ao suicídio evolutivo para o qual marchamos. Daí parecer que estamos sendo guiados e seduzidos a permanecermos inconscientes, fingindo cinicamente que as conseqüências de nossos extremismos progressistas não passam de problemas de adaptação e que estamos indo muito bem com tudo que tem acontecido.

Eu abdico de minha “teoria da abdução” para todos os que me ajudarem, com honestidade, a desvendar esse enigma da “seleção natural do conhecimento”. Estou cansado de ouvir referências meramente marxistas sobre a apenas conseqüente hipocrisia de classe que se beneficia da cegueira das massas. Ninguém pode se atrever a compassar qualquer coisa sobre materialismo dialético sem uma profunda compreensão da fenomenologia do espírito. E isso li de um Lênin, referindo-se à condição sinequanon de se compreender o Capital de Marx: Compreender profundamente toda a Fenomenologia do Espírito de Hegel, filósofo que ressuscitara a fenomenologia dialética historicamente deturpada após Heráclito e base filosófica de Marx em sua Obra.

A exemplo dos grupos políticos de médicos interferindo na evolução do conhecimento sobre nossa saúde, ou da Igreja ocultando escrituras sagradas etc, na filosofia (e nos movimentos políticos) também temos marxistas que nunca leram em profundidade seu precedente epistemológico básico (Hegel). Mais uma vez, parte dos conhecimentos que são norte ao conhecimento histórico da aparição de novas filosofias e conceitos foi omitida para darem relevo a outros que se consagraram. Como diz aquela cientista do filme “Ponto de Mutação”, as coisas mudam mais rápido que a percepção das pessoas. E ignorar tudo isto é ignorância.

Hegelianistas também se julgam os porta-vozes dos escritos de seu “mestre”, por se dedicarem à especialização em Hegel. Na academia isto é bastante comum. Certos grupos de especialistas aprisionam conceitos e se acham detentores de um saber que, como qualquer outro, deveria ser concebido e reinventado nas releituras históricas: um mesmo escrito poderá ter sentidos bem diferentes se lido em outros tempos ou por outras pessoas de outras culturas ou referências. Mas os especialistas não permitiriam isso como “pais possessivos de seus mestres”.

Concordei imediatamente com Lênin, quando li sua crítica aos marxistas que não se detiveram em Hegel ao comentar e dar seguimento à obra de seu “mestre”. A urgência em se conhecer o jogo e de se reconhecer num tabuleiro de sistema econômico, revelado didaticamente por Marx, foi muito importante. Até mesmo os líderes políticos aprenderam bastante sobre o que estavam fazendo graças ao Capital de Marx e tudo o mais. A questão é que o materialismo histórico não deveria ser concebido sem a dialética da fenomenologia do espírito. É preciso lembrar da ponte entre a telepatia e a criação (e dependência) material de um satélite. O ser humano só é capaz de (re)produzir materialmente algo que já tenha no espírito. As invenções e os insights não caem de pára-quedas, vêm de uma inspiração. Algo nos atravessa. Em se tratando de seres humanos, nada que nos atravessa simplesmente se perde... o Ser se trans-forma, consciente disso ou não.

Uma das coisas que podem nos ajudar a começar a desvendar esse enigma do extravio do conhecimento é a noção aperfeiçoada e aprofundada do que chamamos de inconsciente. Gostaria que pessoas efetivamente inteligentes (interessadas em evoluir) pudessem partilhar comigo esse desafio. Descobrir as encobertas nebulosas dessa zona de interferência que nos impede de conceber a realidade para além das ilusões e dos extravios históricos do conhecimento.

Conhecer vem do latim “concebere”! Não faz sentido um cientista passar a vida querendo provar e manter constatações num solipsismo do saber. Conhecer é uma embriologia dialética entre sujeito e objeto, daí o advento de documentários como “Quem Somos Nós” ou “O Segredo”. Mesmo sabendo que em ambos há um preciosismo do subjetivo em certo detrimento do que se diz ser objetivo, estes documentários (produções artísticas de nosso tempo) representam o grito de alerta a respeito do excesso objetivista de nossos referenciais (positivistas, materialistas e instrumentais) de “concepção” da realidade. Perseveremos no caminho do meio ao assistir esse tipo de documentário ou tudo que se refira à concepção de realidade, pois efetivamente, a consciência é uma manifestação ENTRE sujeito e objeto. Disso pode surgir um diálogo producente a respeito do que tem nos conduzido à inconsciência. O desconhecimento da própria gênese da consciência nos deixa vulneráveis à “abduções” de todos os níveis, sejamos umbandistas, cientistas ou “sociedade civil”.

Aguardo os ávidos de consciência, humildemente interessados no despertar de nossos sonos, condicionamentos, etc, a participarem comigo desta empreitada e, caso já estejam com interesses similares, façamos deste “Toró de Toques” (“tempestade de idéias”) um marco disciplinar, no sentido de não desviar (inconscientemente é claro) as atenções deste foco tão essencial. Desta postura poderá surgir novas epidemias muito mais saudáveis de conhecimento, e desvelamento de conhecimentos sagrados já bastante sucateados por grupos de interesses nada humanóides.

Resumindo alguns temas básicos:
1 - Progresso X Evolução: podemos distinguir de diversas maneiras para depois reunir dialeticamente o que temos testemunhado na história com relação à confusão ideológica destes termos. A maneira que me vem esta distinção é através da diferença entre o uso dos meios materiais para evoluirmos e a dependência do que criamos materialmente para evoluir. Para ficar mais claro e não nos restringirmos ao exemplo da telepatia e do uso do satélite, lembro de ter visto uma propaganda da Telemar, recém chegada para diminuir a soberania de nossas excelentes e criativas estatais em telecomunicação, falando sobre a fibra ótica. Era um cara falando em sotaque de matuto sobre a chegada desta tecnologia nos interiores do Brasil. Ele dizia que não tinha importância sabermos (nós matutos do interior) do que se tratava esse palavreado tecnológico todo. Bastava saber que iria trazer uma “evolução” sem precedentes na comunicação à distância. Ele não estava mentindo. É muito sutil o que precisamos apreender dessa propaganda. O conhecimento é a chave da grana no mundo atual. Se você sabe montar e desmontar um computador, já dá pra ganhar uma graninha dos bestas (matutos?) que morrem de medo de mexer no parafuso que abre um gabinete. É muito antigo esse negócio de um grupo que sabe manter as massas emburrecidas a respeito de um “saber oculto” para se beneficiar. É muito provável que o sistema de nossa educação básica (e tudo mais que temos explanado) venha deste “hábito”. Conhecimento é riqueza, seja ela material ou humana. O progresso tecnológico gerou uma segregação decisiva e sem precedentes entre o mundo natural, rural, de sobrevivência livre da dependência material e o mundo urbanóide das tecnologias mercadológicas de ponta. Assim como esta mercadologia tem crescido, também tem crescido a tecnologias humanas, agroecologia, permacultura, construção civil sustentável com adobes que imunizam doenças, uso de homeopatia para equilibrar ecossistemas etc. Tudo isso é feito com as mãos dos humanos, sem dependência de máquinas. No máximo com uso destas para otimizar algum tempo. Mas, diferente de usar como meio de produção para superacelerar uma grana que entre, esta tecnologia cresce para garantir uma vida simples e de muita riqueza humana, com as máquinas subjugadas e não o contrário. Quem nasce na zona rural, com experiência na roça, tem mais opções de viver sem fome, diferente dos que dependem apenas de seus estudos, com risco de desemprego, para ter seu dinheiro e comprar o que vem da roça num supermercado. Em Nova Iorque tem escola ensinando crianças – em maquetes que simulam a zona rural – que o leite vêm de um animal, pois se descobriu que elas pensam vir do supermercado!

Embora quem se restrinja ao acúmulo de capital, na grande maioria das vezes, se educa a não sentir remorsos quanto a qualquer tipo de degradação ou impacto ambiental, esses são apenas exemplos de como se manifestam essas diferenças entre progresso tecnológico e evolução humana, e não uma luta de bandeiras para discutir estilos de vida (Rural X Urbana).

2- Pedrinho Guareshi, sociólogo, em seu livro Sociologia Crítica, nos conta que na verdade só existem duas classes sociais: a dos dominadores e a do dominados. E diz (com outras palavras) que a classe média não passa de um povo metido a besta que não quer ser confundido com a classe inferior e “abre o caneco” para tudo que vem da classe alta a fim de assemelhar-se com esta. Muito curiosa essa perspectiva. Muito difícil assumir essa vaidade, esse medo de sermos pobres, esses pré-conceitos que temos com relação às classes e os valores humanos confundidos com a questão material. Muito urgente assumirmos o que temos de “pré” para evoluirmos em nossos “conceitos”.

Quem tem boa memória acompanhou as primeiras campanhas publicitárias sobre o tema do preconceito assistindo elas falarem de “Discriminação” (racial, de gênero etc). Este termo era bem melhor apropriado do que o termo que veio assumir a hegemonia da idéia inicial: “preconceito”. Passou a existir até um adjetivo: fulano é preconceituoso. Deixando de ser uma expressão de um estado de algo para ser um adjetivo de quem não respeita a igualdade... Vejamos como é inconscientemente que assumimos uma postura cínica e hipócrita em nosso meio social: Todos necessitamos de valores, conceitos pré-estabelecidos, visão de mundo, percepção autêntica, concepção de realidade... Quem foi que disse que não podemos (ou pior não devemos) ter pré-conceitos. Até concordo que não deveríamos nos agarrar com unhas e dentes aos prés de nossos conceitos de vida, mas negá-los nos tira a condição de con-frontar realidades, de trocarmos e expandirmos nossos prés para evoluirmos dentro de uma construção de verdade maior que a individual, numa construção criativa de realidade e convivência social. E ao invés de conversarmos sobre a discriminação (a segregação, a separação e distinção, dentro de nossa própria espécie, de seres “mais e menos humanos”), passamos a nos culpar de termos naturalmente nossos pré-conceitos. É incrível como um sistema econômico evolui e traz consigo elementos de expiação religiosa para gerar constrangimentos de sermos independentes em nossos valores, abraçando causas exteriores à nossas concepções autênticas como universais para o interior da sociedade. Esta passa a se agarrar, com o reforço da coletividade, a credos quase religiosos, beirando ao fanatismo (preconceito propriamente dito), a partir de uma seguridade forjada pelos aparelhos de Estado tão bem descritos por Marx, gerando todo tipo de intolerância, discriminação e segregação do que deve ser considerado “humano” e o que deve ser excluído desta condição.

“Preconceito não faz bem a ninguém, e sem ele penso o que seria do poder. Preconceito já causou muito mal. Quem elege seres que decidem o que é normal?”
O refrão desta canção de Via Negromonte (muito oportuno para nossa discussão geral) teria “melhor” sentido se ela utilizasse o termo discriminação. Mas a música perderia em sonoridade, pois ela põe ênfase no termo preconceito. Tudo bem, o que vale é o sentido geral da mensagem. As manifestações artísticas são mesmo parte de nosso inconsciente coletivo, propagando inclusive nossas confusões epistemológicas inconscientes.

3- Pensar que tudo é uma questão de adaptação é ser criado na passividade progressista. Não temos que aceitar tudo como pragmaticamente parece ser correto. Se a grande fatia de nosso desenvolvimento e comportamento é inconsciente, faz-se necessário agir conscientemente, para além das reações inconscientes que dentro de nós cria forma e acreditamos ser nossas verdadeiras convicções. Re-conhecimento acontece com estranhamento. Este sentimento é essencial a qualquer evolução humana. Sem estranhamento não se passa para uma nova fase, não há desidentificação com algo que não faz mais sentido, ou com o passado. Pelo contrário, quanto mais afirmamos o mesmo de sempre acreditando estarmos evoluindo, mais revelamos o agravamento do narcisismo doentio. Quando nos identificamos com a imagem, como a cultura da aparência deseja, não estamos falando de nossos desejos autênticos, mas dos valores coletivos, comuns à nossa educação, aos valores que nos ensinaram a defender. Isso é bastante primitivo depois de termos evoluído do excesso de coletivismo socialista para o excesso de individualismo capitalista. Concentrarmos-nos no caminho do meio é pra ontem!

4- Aprender com a natureza nos ensina que não podemos dominá-la. Evoluímos juntos ao nosso habitat ou não estamos efetivamente nos trilhos da evolução.

0 comentários:

Postar um comentário