Certa vez, se não me falha a memória em 98, estava passeando por uma das muitas calçadas destroçadas numa pequena rua do Recife. Um trecho dela estava sendo recuperado. Um dos trabalhadores comentou com seus colegas à respeito de um transeunte que passava indiferente pela rua: “olha aí esse cabeludo! Só quer aparecer, querer ser o cara... se fosse artista tudo bem, que é artista, mas esse aí não é nada, fica de cabelo grande, parecido uma mulher...”.
O engraçado da questão é que, segundo a lógica popular, se eu for artista eu posso fazer o que eu quiser, me vestir exoticamente, deixar cabelo crescer, me encher de penduricalhos e parangolés... mas se eu for “pessoa comum”, sou estereotipado de palhaço. Um artista beija todas as amigas e não é um galinha safado – é artista. No entanto nada me impede de estabelecer uma relação de intimidade simples o suficiente para fazer o mesmo, embora não tenha licença artística para ser absolvido pelos tribunais sociais por conta da atitude.
O foda é que a fama é quem dá legitimidade ao “ato artístico”. Daí tanta gente se espelhar no status e fazer suas adaptações artísticas, pois se ganhar fama tem poder. E isso está sendo gerado mesmo! Não é mera especulação ou contemplação arredia. Já dizia os Racionais, “eu não preciso de status nem fama”. Mas quem se vale de sentir-se nobre sem ser da galera? Os intelectuais, a galera Cult? Místicos? Pessoas acanhadas? Porque será que só aquela gostosona consegue andar esbanjando feminilidade e espontaneidade (eu sei a maioria apela no misancene, mas me refiro à legitimidade de ação) , enquanto milhares de garotas menos esbeltas (e com mais conteúdo) geralmente possuem uma postura de estar acima da vaidade que negam e se resguardam de caminhar com leveza e graça? Sim, porque se a vaidade é um valor na indústria da sexualidade consumista, isso não significa que não possa fazer parte do feminino. Significa uma deturpação do desenvolvimento do amor e da graça em prol de estereotipias formatadas para atrair consumo. Na verdade a garota que nega a vaidade o faz por conta de ser um valor menos nobre que sua totalidade enquanto pessoa. Mas ao mesmo tempo a maioria acaba numa postura incruada, no mínimo contida na expressividade. Uma expressividade que não tem que ser dependente de padrões estéticos de comportamento, mas que se manifesta translúcido. Seja na atitude quebra-gelo de extrovertimento e entusiasmo forjados, seja no embotamento concreto perante o colorido do entretenimento que fascina (ou ofusca) a rapaziada ansiosa por ter o poder, ser o Don Juan...
Quantas e quantas meninas belíssimas desperdiçam a beleza sem se darem conta do que experimentam, sem discernir que prazeres trazem bem ou mal e que dores revelam ou sepultam..?
Fama e Arte não deveriam permanecer casadas. O desperdício sabe do que falo. Arte não é entretenimento fajuto. A fama até pode ser uma consequencia da arte, como a indústria cultural tenta estabelecer. O entretenimento pode até ser considerada uma subdivisão, ou forma de expressão da arte, mas não tem que ser uma unidade com ela por causa disso. E porque Fernando Pessoa entre tantos e tantos outros são reconhecidos depois da morte? Isso está bem dentro do desperdício de nossa arte espontânea e inata. Anônimo ou na mídia, do que realmente vale ser artista? O status, a fama, o poder, a legitimidade e o perdão dos idólatras? Onde e como estamos no tabuleiro do tempo? Que autenticidade e transcendência cultural esperar do consumismo desmedido e sem destino de todo desperdício de beleza potencial em nossa volta? Cópias e clones virtuais de ícones desenhados artificialmente, feito rosto polido de manequim de vitrine... e as fileiras do clipe The Wall em que os alunos estão mascarados com semelhante xerox no semblante chapado... Quantas mensagens, alertas e revelações serão ainda necessárias para uma ligação com um todo maior que nos faça retomar as rédeas de nossa sensibilidade, a ponto de nos percebermos no jogo para reaver a integridade na existência, sendo um regente, ou ao menos um mediador das transformações que nos contornam? Quantas e quantas..? Qual é o Quantum desperdícium de nossa economia existencial? Quanto custa essa tomada de consciência?
Aí depende do quanto vale a vida para cada um, se vale profundamente alguma coisa para estar presente, se estiver... depende do custo/benefício que a barganha oferecer...
Descasemos a Arte da Fama e façamos nossas legitimações dentro da experiênica do que somos uns com os outros!
sexta-feira, 24 de abril de 2009
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