segunda-feira, 20 de abril de 2009

Apresentação

Aos catorze anos optei por motivar-me nos estudos em nome de uma profissão que pudesse ser capaz de fazer com que me sentisse útil. Cheguei a pensar em medicina por muito pouco tempo, pois se tratava de uma atividade com a qual não me identificava. Sempre fui fascinado pelas relações humanas, e a utilidade de um médico, além de possuir uma natureza de responsabilidade técnica para com a vida de um ser humano, me parecia um tanto quanto insuficiente no que tange ao contato.

Minha percepção existencial para com as relações humanas já observava um teor suficiente de indiferença para querer, "estudando anatomia", representar um papel de médico. Desejava ser útil de maneira um pouco mais atuante e interativa.

Com o tempo fui me apaixonando cada vez mais pelas diferenças: sentia na pele a indiferença própria de minha geração - hoje entendo que se tratava de insegurança narcísica e defesa natural - para com pessoas sensíveis, diferentes, novas em idéias. Decidi, enfim, motivar-me para ter uma melhor compreensão do mundo e do que poderia ser identificado como natureza humana. Apesar de simpatizar muito com filosofia e poesia, percebia uma certa solidão nessas perspectivas mais aprofundadas e sinceras da existência. Naturalmente nunca me distanciei muito dessa "solidão", pois acreditava - e acredito cada vez mais - na possibilidade de haver seres corajosos que valorizassem suas próprias diferenças, a ponto de manifestá-las em prol de uma humanidade mais rica.

Já que precisava escolher algo para me sustentar como ser humano total, decidi buscar por uma conciliação entre vida pessoal e profissional, como os corredores de "fórmula 1" ou jogadores de futebol me pareciam conseguir, sem necessariamente ser tão bem remunerado Quanto os tais. Então resolvi, já próximo do segundo grau, motivar-me para ingressar numa faculdade de Psicologia.

Após três anos de tentativas frente à natureza desumana de um processo sem sentido, intitulado "vestibular", aqui estou, entre decepções acadêmico-burocrático-pedagógicas e identificações epistemológico-vivenciais. E o que mais me aflige no momento, não é - pelo menos não unicamente - a preocupação no que concerne às possibilidades de emprego, mas sim com relação à seguinte reflexão: até que ponto já não estou desvirtuado do caminho que me trouxe até a universidade?

A demanda da chamada globalização econômica prefere exigir uma espécie de status intelectual - verificado na necessidade de títulos, rótulos e burocratizações em geral - em detrimento da potencialidade e sensibilidade pessoais de cada indivíduo. Ao menos na parte que me toca, estou prestes a completar vinte e três anos, e caso queira participar das exigências de "sei lá quem", só vou pôr em prática meus estudos na profissão com aproximadamente trinta e quatro anos. Isso porque, iniciação científica, mestrado, doutorado ou qualquer outro "investimento profissional gradual", raramente representa uma atuação humanizadora, mesmo em se tratando de "ciências humanas". Considero importantes os processos de especialização, mas nunca irei admitir que sejam referências indispensáveis para que se deposite confiança nas capacidades pessoais de cada ser. Ou será necessário falar sobre a contingência de quem possui um "currículo invejável", mas não consegue ser flexível quanto aos aperfeiçoamentos que a prática revela? Não sei quanto às demais áreas, mas em psicologia nome precisa ser atitude.

Me dá febre pensar que minha juventude, entre trilhares de outras, representa uma concessão a uma "racionalização burrocrática"; um número a ser posto num caixão quando de sua invalidez - talvez a ser esculpido num bloco de uma universidade ou praça de uma cidade qualquer.

Sinceramente acho que não preciso de status, fama ou ibope. Prefiro ser reconhecido por gente que por imagens. Talvez acabe parando em algum roçado, num lugar onde as pessoas não precisem viver estressadas em função de uma competição que, no fim das contas - ou da vida - não vai favorecer a ninguém. Naturalmente trabalho para que não precise tomar atitudes tão radicais no futuro. Porém não costumo fugir de desafios - me refiro à possibilidade do "roçado", logicamente.

A consciência que verifico em mim mesmo não anda suportando auto-agressões. Se em um lugar, para se viver, é preciso participar de alguma espécie de violência na qual ponha-se em risco o crescimento humano, interpessoal, ninguém tem direito - nem moral - suficiente para achar que seria uma atitude egoísta um ser humano decidir sair de um habitat desnaturalizado, para naturalizar-se num meio ambiente em que haja espaço para uma expansão dignamente humana - a não ser que alguém utilizasse alguma espécie de retórica, ou qualquer outro meio mais cínico, no intuito de argumentar a favor da permanência desse ser, sentindo-se dessa forma mais seguro enquanto ser global.

Existe, entre os "robôs" sociais, um isolamento típico de quem se defende - narcísico. Não pretendo permanecer nesse jogo coletivo de medos projetados, a menos que possa ser efetivamente útil em meio a esses processos. Não posso garantir que terei sempre, como posso dizer hoje, motivos que me motivem à prática da psicologia nas grandes cidades. Simplesmente por não acreditar que a psicologia seja uma ciência tão especializada quanto a Academia faz crer. Penso que há uma diversidade maior a ser posta em expansão nos estudos que ando desenvolvendo. Não pretendo criar - exceto se for necessário - uma nova teoria psicofilosófica, mas sim uma nova prática a partir do que estou vivenciando e aprendendo a observar na cultura, graças à ontologia de suas artes.

Enfim; compor um projeto de vida me parece algo tão importante quanto capcioso. Sei que, mais cedo ou mais tarde, terei de cuidar de minha "especialização" se quiser permanecer neste curso. Não obstante, pretendo continuar vivendo em função de minhas inquietações, perante as imperfeições que forem impressionando minha percepção durante a vida.

2 comentários:

  1. Este texto foi elaborado em maio de 2000 na Era Acadêmica (1998-2003/Universidade Católica de Pernambuco)

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